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HOMEOPATIA: CIÊNCIA OU SUPERTIÇÃO PDF Imprimir E-mail


I. CONCEITO

O termo homeopatia vem do grego "homoios-pathos" (sofrimento semelhante) e designa a doutrina que prega a cura de doenças pela administração de substâncias que, aplicadas num indivíduo são, geram sofrimento semelhante ao do paciente.

O medicamento aplicado num indivíduo são causará artificialmente uma doença. Quanto mais semelhantes forem os sintomas do paciente, realmente doente, com os sintomas causados por esta substância, maior a eficácia deste medicamento para a cura deste doente. Por exemplo, a ingestão de café pode causar insônia. Logo, se um paciente tem um problema de insônia, um remédio de café deveria curá-lo.

Esta doutrina será mais detalhada no cap IV.

II. SEU FUNDADOR

Christian Friedrich Samuel Hahnemann nasceu em Meissen, Saxônia, em 10 de abril de 1755. Meissen, fundada em 929 no leste da Alemanha, ficou luterana no século XVI e era bastante afamada pela porcelana no séc. XVIII.

O pai de Hahnemann, Christian Gottfried, artesão na arte da porcelana, possuía uma forte convicção no luteranismo.

Durante a Guerra dos 7 anos (1756 - 1763), Frederico II invadiu a Saxônia e determinou o fechamento da fábrica de porcelana em Meissen, transferindo-a para Berlim. Assim, o pai de Hahnemann perdeu sua atividade econômica, o que resultou numa educação conturbada.

Hahnemann teve sua educação primária em casa. Aos 12 anos (1767) começou a frequentar a escola primária, porém, de maneira irregular.

Com 15 anos (1770), com a proteção do duque da Saxônia, ele matriculou-se na escola do principado. Nos 4 anos que permaneceu lá, aprendeu línguas, matemática, geometria e botânica. No fim do curso, escreveu uma tese em latim sobre a anatomia da mão humana, mostrando sua tendência para medicina.

Aos 20 anos (1775) foi estudar medicina na universidade de Leipzig, sustentando-se com aulas de francês/alemão e traduzindo do grego e do inglês.

Como a faculdade de Leipzig não oferecia a possibilidade da prática médica em hospitais, com a proteção do Dr. Joseph von Quarin (médico da imperatriz Maria Theresa), muda-se em 1776 para Viena, estudando e praticando no Hospital dos Irmãos Misericordiosos.

Após 9 meses, vendo-se sem condições financeiras de sustentar-se, pela influência do Dr. Quarin, o governador da Transilvânia, barão Samuel von Brunkenthal, o empregou como médico da família e diretor da biblioteca. Hahnemann permaneceu 1 ano e 9 meses em Hermanstadt, época em que entrara na Maçonaria.

Em 1779 muda-se para Erlagen para concluir sua formação acadêmica. A universidade de Erlagen era considerada anti-ortodoxa. Era a sede do movimento "Aufklärung" (esclarecimento), que tinha suas raízes no pensamento de intelectuais como Goethe, Shiller e Lessing.

Formou-se em 1779, com a apresentação da tese "A cãibra, suas causas e tratamento".

Após formado mudou-se para Hettstedt, porém, não permaneceu mais que 9 meses, mudando-se para Dassau.

Em Dassau Hahnemann apaixona-se pela Química, mas também pela "Naturphilosophie", filosofia de Scheeling com caráter mais pagão que cristão.

Em 1781, casa-se com Joana Henriete Leopoldine Kuchler, filha do farmacêutico da cidade, e um ano depois, muda-se para Gomern, onde sua prática médica foi um fracasso. O povo preferia os remédios caseiros e as bruxarias. Lá, ele publica seu primeiro trabalho: "Diretrizes para a cura de velhas feridas e úlceras". Em 1785, muda-se para Dresden, capital da Saxônia, onde vive por mais de 4 anos fazendo traduções e com um cargo público, onde supervisionava parteiras e cirurgiões, e cuidava de órfãos, de prisioneiros, da prevenção de doenças e da realização de exames post-mortem. Em 1789, retorna a Leipzig. Desiludido pela prática médica vigente, ele não pratica a Medicina. Impossibilitado de sustentar-se em Dresden, tem uma vida errante por cerca de 12 vilas entre 1789 e 1805. Nesta época escreve o livro "O amigo da saúde", onde ele protesta contra os métodos da Medicina, principalmente nos casos de loucura.

A Medicina da época de Hahnemann era bastante precária, para não dizer perniciosa. Seus métodos eram ilógicos e agressivos, geralmente agravando os quadros clínicos e levando-os ao óbito. Os principais procedimentos terapêuticos eram:

1- Sangrias

O tratamento de muitas doenças tinha como base a retirada de sangue do paciente, em geral de 1 a 2 litros. Alguns recomendavam que a sangria fosse feita até a inconsciência para facilitar a redução de fraturas pelo relaxamento muscular e ausência de queixas.

O médico François Broussais (1722-1838) foi apelidado de Robespierre médico, pois tinha retirado mais sangue de seus pacientes do que tinham derramado nas guerras Napoleônicas.

As sangrias eram recomendadas em casos de Coqueluche, Cólera, Febre, e até mesmo hemorragias (o poeta Goethe, após sofrer uma hemorragia digestiva, foi sangrado em mais um litro).

George Washington, em 14 de dezembro de 1779, teve uma severa dor de garganta. Foi feita uma sangria parcelada de dois litros, seguida de vesiculações e administração de Calomelano (cloreto de mercúrio). No mesmo dia ele veio a falecer.

As sangrias também eram feitas por meio de sanguessugas. Em 1833, a França importou 41 milhões de sanguessugas para completar sua produção. Os gastos hospitalares com estes animais chegavam a ser maiores que todos os outros medicamentos.

 

2- Eméticos/purgantes

O Calomelano (cloreto de mercúrio) e outras substâncias tóxicas eram recomendados como eméticos e purgantes, com a falsa ideia de que a diarreia e os vômitos provocados eliminariam as impurezas internas.

 

3- Vesiculações

A aplicação de substâncias cáusticas e irritantes sobre a pele (vesiculação) provocavam infecções na pele, e as supurações de pus eram também interpretadas como eliminações de impurezas internas.

Também vale ressaltar que houve uma grande procura por outros meios anti-racionais de medicina (frenologia de Gall, siderismo de Ritter, brownismo importado da Inglaterra e magnetismo animal de Mesmer). As pessoas se apaixonavam por todas as formas de telepatia, clarividência, leitura do pensamento e hipnotismo. A exploração do inconsciente, que a escola romântica tinha posto em moda, chegou ao seu apogeu.

Em 1792, Hahnemann foi convidado a cuidar de um asilo de loucos em Georgentahl, porém, com a morte de seu único paciente, abandona o ducado em 1793.

Enquanto ficou na vila de Molschleben, traduziu o "Tratado sobre matéria médica", do Dr. Willian Cullen. Neste livro existia uma descrição dos efeitos da quinina (substância extraída da casca de uma árvore peruana e usada no combate da malária). Não satisfeito com a descrição dada, Hahnemann resolveu experimentar a raiz e descreveu os sintomas que sentiu como semelhantes aos sintomas da malária. Assim começa a pregação do princípio da similitude.

Em 1799, publica o ensaio "Novo princípio para interpretar o poder curativo das drogas e o exame dos princípios existentes" no jornal Medizinische Practic, que defende o princípio da homeopatia (similia similibus curantur).

Entre 1805 e 1811, Hahnemann fixa residência em Torgau, cidade próxima de Meissen.

Em Torgau, ele publica 19 livros e ensaios. Entre eles, o ensaio "A medicina da experiência", onde todos os pontos da homeopatia já estão definidos.

Em 1810, Hahnemann publica sua principal obra, o livro "Organon", que possui toda a base da homeopatia e toda a sintomatologia sobre várias substâncias experimentadas por ele próprio.

Em 1811, mudou-se para Leipzig para tentar difundir suas ideias através de um instituto criado por ele, porém, não teve nenhum interessado. Assim sendo, ele tenta obter o grau de docente na Universidade de Leipzig para poder dar conferências e cursos.

Em 1812, ele passa no exame oral, defendendo uma tese, em latim, sobre uma erva medicinal antiga, o heléboro branco. Sua tese era que esta erva era na verdade o veratrum album moderno. Sua tese fugia completamente da polêmica doutrina da homeopatia.

Em 1813, por causa da guerra com Napoleão, Leipzig fica repleta de mutilados e moribundos, que enchiam os hospitais da cidade. Não tardou a começar uma crise de febre tifóide. Hahnemann acabou tendo prestígio pela utilização do método homeopático, o qual obteve resultados superiores aos da medicina convencional de então.

Em Leipzig, Hahnemann e seus discípulos fabricavam seus próprios medicamentos, isto fez com que os farmacêuticos de Leipzig reclamassem seus direitos aos conselheiros da cidade. A denúncia foi aceita e Hahnemann ficou proibido de fabricar seus medicamentos. Assim, em 1821, Hahnemann mudou-se para Kothen, cidade a 16 milhas de Leipzig. O duque de Kothen era profundo admirador de Hahnemann, concedendo-lhe o cargo de médico da corte.

Em Kothen, Hahnemann elabora a teoria das dinamizações, e, em 1827, apresenta a obra "As doenças crônicas", a qual causou polêmica mesmo entre homeopatas.

Em 1830, sua esposa faleceu, e, em 1835, aos 80 anos, ele se casa com Melanie d’Hervilly, moça de 32 anos de idade, que foi para Kothen para ser curada por Hahnemann. Segundo Haehl, biógrafo de Hahnemann, Melanie foi a Kothen com a definitiva intenção de aprender a homeopatia.

Em 1835, Hahnemann refaz seu testamento, deixando Melanie como única herdeira, retirando seus filhos.

Melanie o convence a mudar-se para Paris, onde abre uma luxuosa clínica com sua esposa como ajudante. O rei Luís Felipe lhe dá o direito de clinicar, e sua clínica obtém um prestígio mundial. Duques, príncipes, políticos e pessoas influentes procuravam sua famosa clínica.

Em 1843, Hahnemann falece, e seu sepultamento ocorreu da maneira mais simples possível, sem padre, orações ou discursos. A viúva não chamou ninguém. Ele foi sepultado na mesma cova em que foram colocados dois homens que tiveram relacionamento com Melanie: no começo dos anos 20, o "último presidente da república francesa", e em 1932, o pintor La Thière.

LEITURAS

Hipócrates, Paracelso, Van Helmont, Sydenham, Boerhaave,Stahl,Haller.

III. RAÍZES DOUTRINÁRIAS

3.1. Hipócrates (460 - 375 AC)

Na época de Hipócrates, duas correntes de medicina se definiram. A escola de Cnido e a de Cos.

Na escola de Cnido, a patologia era localizada e os sintomas eram analisados e combatidos. Existiam doenças.

Para a escola de Cos, a doença era interpretada como um quadro específico de cada paciente, que era tratado como um todo indivisível. O remédio era para restabelecer a ordem da pessoa e não para atacar os sintomas. Não existiam doenças, mas sim doentes.

Hipócrates defendia a escola de Cos, apesar de admitir a utilidade do método de Cnido.

Nas escola de Cos, existia o princípio de que a cura dos doentes era feita pela administração de remédios que produziam sintomas semelhantes aos que o doente apresenta:

"A doença é produzida pelos semelhantes, e pelos semelhantes que prescrevemos ao paciente, ele retorna da doença à saúde. A febre é suprimida pelo que a produz e produzida pelo que a suprime" (Hippocrate. Euvrés Completes em Landman pg 84).

 

3.2. Paracelso, Filipe Bombast von Hohenhelm (1493 - 1591)

Mestre de Alquimia, médico e filósofo alemão, amigo do heresiarca Zwinglio, de ideias iconoclastas, conseguiu difundir suas doutrinas sem ser condenado pela Igreja. É considerado o personagem mais característico do Naturalismo alemão na Renascença. Definia o fundamento da Medicina como uma conjugação entre o mundo exterior e as diferentes partes do organismo humano. Célebre pela doutrina dos medicamentos específicos e por sua teoria da múmia, bálsamo natural que deveria preparar todos os tecidos.

É considerado o pai da Medicina Hermética e destruidor da Medicina Escolástica.

Fundiu seus conhecimentos alquímicos com a prática médica.

Paracelso foi discípulo de Johannes Trithemius (1462-1516), abade de Sponheim - expert em Ocultismo e famoso for fazer luzes mágicas que nunca se consumiam. É dito que o imperador Maximiliano I pagou 6.000 coroas por uma destas lâmpadas e que depois de 20 anos abandonada, continuava acesa.

Princípios de Paracelso

  1. Introduziu a noção de metais e minerais como agentes medicinais importantes.
  2. Rejeitou a Escola de Galeno (129-199) sobre os quatro humores (sangue, fleuma, bile e linfa), que dizia que todas as doenças eram desequilíbrios destes humores. Como também negou o princípio que o contrário cura o contrário (a Medicina utiliza estes conceitos. Por exemplo, dá-se um remédio que abaixa a temperatura para aqueles que têm febre. Esta medicina é conhecida como Alopatia).
  3. Introduziu a ideia dos 3 princípios majoritários (enxofre, mercúrio e sal, considerados por ele como a manifestação da trindade divina), sistema que veio da antiga literatura alquímica do Islã. Segundo Paracelso, os 4 elementos (terra, fogo, água e ar) seriam fundamentados nos 3 princípios.
  4. O igual cura o igual. "Onde as doenças afloram, também podem se encontrar as raízes da saúde, pois a saúde deve se originar das mesmas raízes que a doença e se a saúde vai de lá para cá, a doença também deve ir" (Hahnemann. "Lesser Writings em Danciger, pg. 34). "Jamais uma doença quente foi curada por alguma coisa fria, nem a fria, por alguma coisa quente. Mas já aconteceu do igual curar igual" (ibid, pg. 34). Ele propôs que os mineiros de Fuggens (Áustria), que sofriam de enfermidades causadas pelos minérios, fossem tratados com os mesmos metais que geraram suas doenças.
  5. Teoria dos Arcanos: qualidade essencial existente numa substância que a torna curativa. "...o princípio da Medicina consiste destes arcanos e que os arcanos formam a base de um médico. Agora, se a essência fatal da matéria reside nos arcanos, conclui-se que o fundamento de tudo é a Alquimia" (Hahnemann "Lesser Writings" em Danciger pg 35).
  6. Como a astrologia influía sobre as partes do organismo, os remédios deveriam ser proporcionados a isto.
  7. Não importa a quantidade do Arcano: "Quem consegue pesar a luminosidade do sol... ou o spiritum arcanum?... Ninguém" (Alan Debus em Danciger pg 40).
  8. A existência de uma causa espiritual das doenças. "... Mas, uma vez que o corpo não possui nenhuma participação nesta forma de vida (espiritual), ela é o ens spirituale, o princípio ativo espiritual, de onde brota a doença..." (Hahnemann "Lesser Writings" em Danciger pg 41).
  9. Defendia a analogia desenfreada das formas.
  10. Prescrevia a saxífraga na litíase renal em virtude da forma desta planta ser parecida com a de um rim. Ou, o ciclame nas afecções do aparelho auditivo devido ao formato auricular de suas folhas, etc... (Romanach em Landman pg 85).

 

3.3. Van Helmont, Jean Baptiste (1578 - 1644)

Flamengo, praticante de ocultismo, foi condenado pela Inquisição em 1634 por 2 anos, sob a acusação de superstição, magia e artes diabólicas.

Em sua doutrina são encontrados os seguintes pontos:

  1. Contra os remédios sintomáticos.
  2. Como Paracelso, acreditava que os Archeus geravam as doenças, quando em desarmonia.
  3. Archeus: Princípio imaterial, força vital e espiritual, mas não era a alma.
  4. A doença provinha do espírito para a matéria.
  5. Não existe doença e sim doentes. As causas exteriores eram ocasionais e não essenciais para a doença.

 

3.4. Stahl, George Ernest (1660 - 1734)

Médico e químico alemão, professor na universidade de Halle.

Foi o criador da teoria do Flogístico (matéria do fogo, que poderia se combinar reversivelmente com os outros três elementos básicos: ar, água e terra).

Ele defendia a teoria do animismo vital. As doenças eram causadas pela desarmonia do espírito, a doença era o esforço da Anima para restaurar, nos órgãos adoecidos, o vigor e a harmonia.

A teoria da anima imaterial que regula todas as funções fisiológicas influenciou muito a escola de medicina de Montpellier.

IV. DOUTRINA HOMEOPÁTICA

4.1. O igual cura o igual

Este é o principal ponto da doutrina homeopática ("Similia similibus curantur").

Hahnemann quis justificar este princípio através de sua famosa experiência com o quinino.

Tomando por vários dias 4 dracmas (14 gr) de quina, 2 vezes ao dia, ele experimentou sensações de palpitação, pulso rápido e difícil, ansiedade, prostração, rubor facial e sede. Assim, ele quis explicar que a quina teria efeitos febris num indivíduo são e pela similia similibus curantur, a quina administrada a pessoas com febre teria o efeito de cura.

Porém, não é isto o que se observa na realidade:

"Desde que a quina tem sido tomada por pessoas e aplicada em animais, através das mais variadas formas, sem ter jamais produzido febre, ao contrário, tem sido demonstrado com absoluta certeza uma queda de temperatura. Os homeopatas de hoje devem ser assim, inventar um outro argumento para estabelecer a quinina como remédio em acordo com o princípio do similia similibus" (Prof. Behring - 1898 em Haehl, pg.38).

Vale realçar que no século XVIII o conceito de febre era muito vago, sendo o sinal patognômico da febre, para Hahnemann, o pulso rápido, rubor facial, sede, entre outros; sintomas tanto da hipertermia (febre) como da hipotermia (baixa temperatura).

 

4.2. Experimentação em pessoas sãs

Conforme o princípio da "similia", é necessário testar as substâncias medicamentosas em pessoas sãs para saber receitar a substância que causa os sintomas mais semelhantes ao do doente.

"... Pode-se sobrepor à doença a ser tratada, em particular se for crônica, o remédio que é capaz de estimular uma outra doença artificialmente produzida, a mais semelhante possível, e a anterior será curada - similia simillibus" (Hahnemann em Lafetá, 1989, pg. 133).

 

4.3. As diluições infinitesimais / dinamização

Como Hahnemann constatou a piora dos quadros dos seus pacientes com substâncias de acordo com a "similia", resolveu diluir os medicamentos em graus ínfimos.

Hahnemann, recomendava que a administração de todas as drogas fosse feita empregando-se a 30ª potência, um sistema de diluição que se constitui na diluição da suposta substância curativa da seguinte maneira:

Pega-se uma parte da substância curativa pura e dilui-se em 99 partes de solução alcoólica a 70% (i.e., 70% de álcool e 30% de água), esta é a primeira diluição ou primeira potência (CH1). Depois, da diluição resultante, toma-se 1(uma) parte e dilui-se novamente com 99 partes de solução alcoólica a 70%, sendo esta a segunda potência (C2). E a diluição se processa daí por diante.

Existe também a diluição em lactose (o açúcar é considerado inerte pelos homeopatas), a qual se processa pelo embebimento da lactose (ou mistura de lactose com sacarose) com a solução alcoólica descrita acima.

Verifica-se então que a solução da primeira potência (CH1) está diluída na razão de 1%, a (C2) está diluída na razão de 0,01%, a (C3) a 0,0001%, e assim por diante.

A 30ª potência corresponde a uma diluição de:

0,000000000000000000000000000000000000000000000000000000000001%, i.e., 59 zeros depois da vírgula.

Daí o nome de diluições infinitesimais, que na verdade, só contêm solvente, sendo absurdo se cogitar que ainda haja substâncias ativas, como vemos nas declarações de Flávio Dantas, médico formado na UFRN, professor do Departamento de Clínica médica da Universidade Federal de Uberlândia, onde exerce a Clínica homeopática:

"A homeopatia, diluindo sucessivamente a substância básica, chega a diluições infinitesimais, onde teoricamente não deveria existir uma única molécula da substância original, ou seja, o medicamento homeopático passaria a não ser mais um agente puramente químico, e sim energético" (Dantas, pg. 31).

"Diluições homeopáticas exclusivamente energéticas são acima da 12ª diluição centesimal (C12)" (o grifo é nosso) (ibid pg 33).

"De 1829 em diante, Hahnemann recomendava que a administração de todas as drogas fosse feita empregando-se a 30a potência (C30). Tal diluição corresponde à presença de uma molécula da droga ativa numa esfera de circunferência igual à órbita de Netuno" (A.G.Clark: Farmacologista, autor conceituado na área de Farmacologia médica na década de 30, em Dantas, pg. 32).

Alguns porém, fanaticamente dispostos a provar a eficácia natural destas diluições, afirmam que substâncias como a prostaglandina têm efeitos sensíveis com apenas 1(um) picograma, isto é, um bilionésimo de grama. Se colocássemos isto em um quilo de solvente, teríamos uma concentração de 1.10-12 %, ou seja, muitíssimo superior aos remédios homeopáticos.

Para aludir bem o caso, vamos supor que jogássemos 1 (um) átomo de hidrogênio, o menor dos elementos existentes, em 1 (um) quilo de solvente. Por estequiometria, obtemos uma concentração de aproximadamente 1,6.10-27. Entretanto, a diluição homeopática (C30) recomendada por Hahnemann é de aproximadamente 1.10-60, isto é, mais de um decalhão de vezes menor. Logo, se o paciente toma 1(um) quilo de medicamento homeopático, não achará sequer um átomo da molécula da substância ativa.

Os homeopatas concordam que uma simples diluição infinitesimal é totalmente inócua para tornar o medicamento homeopático ‘eficaz’. Ele deve passar ainda por um estágio de ‘dinamização’.

A dinamização consiste num método de extrair a ‘energia curativa imaterial’ da matéria prima (ou tintura mãe), por meio de agitações verticais sucessivas, chamadas ‘sucussões’.

Além disso, é afirmado que entre cada diluição (potência), pela dinamização, o remédio estará mais "energizado", sendo sua ação mais profunda, independendo de sua concentração material.

Supor que diminuindo a causa, aumentar-se-á o efeito, contradiz a razão.

Um ponto discrepante da teoria da dinamização homeopática é sobre o solvente da solução homeopática, o álcool. Por que o álcool, que causa tantos distúrbios numa pessoa sã, é considerado inerte para os homeopatas? Imagine como o paciente deve ficar altamente "dinamizado"...

 

4.4. Imaterialidade do agente morboso (que causa doença) teoria da força vital

Por causa da doutrina vitalista de Hahnemann, foi elaborada a dinamização das substâncias, pois ele cria que a força vital (imaterial) dos elementos era libertada pelas sucussões.

"O imaterial morbígeo perturbando o imaterial vital determina alterações materiais" (Hahnemann em Lafetá pg 142).

"... Assim sendo, o agente morbígeo também espiritual (dinâmico), ele não pode, em si, ser apreendido pelos sentidos, sendo então desnecessário, porque impossível, determinar suas características, defini-lo enquanto tal" (Hahnemann em Lafetá pg 142).

"... com essa expressão quero significar que as doenças não são, evidentemente, nem podem ser, perturbações mecânicas ou químicas da substância material do corpo físico, que elas não dependem de um agente patogênico material, mas são alterações dinâmicas e imateriais da vida" (nota do §31 do Organon em Lafetá pg 144).

"Uma criança com varíola ou sarampo comunica à criança vizinha, sã, não tocada por ela, a varíola ou sarampo de maneira invisível (de forma dinâmica), isto é, infecta-a à distância, sem que qualquer material da criança infectante passe e possa passar àquela outra" (Hahnemann § 11, ibid pg 142).

Conservação dos remédios homeopáticos

Não se pode tocar no remédio, pois ele perderia sua energia: "...devem ser passados dos frascos para as tampas dos mesmos e dessas diretamente para a boca, sem serem manuseados" (Barollo pg 53).

"Não devem ser guardados em locais expostos à luz solar direta, ou outras fontes emissoras de energia, como TV (principalmente em cores), magnetos e motores..." (ibid pg 52).

Portanto, a homeopatia prega que tanto a causa das doenças como o remédio são imateriais.

 

4.5. Doenças crônicas

Visto que os medicamentos homeopáticos não curavam uma série de doenças, Hahnemann declarou que existiam 2 tipos de doenças: as agudas e as crônicas.

Por esta teoria, que gerou muita polêmica entre os homeopatas da época, as doenças crônicas seriam devidas a um "miasma crônico", contra o qual a força vital não reúne forças para eliminar.

Hahnemann, 18 anos após a publicação do Organon, passou a encontrar uma causa única, realmente fundamental para todas as doenças. Em 80 parágrafos, Hahnemann acaba dizendo que aproximadamente 7/8 de todas as doenças têm sua causa no miasma psórico, o pior miasma crônico) (Lafetá pg 157).

"...A cura das grandes doenças crônicas de dez, vinte, trinta anos ou mais de duração, pode ser muito demorada ou impossível se tiverem sido mal conduzidas por um excesso de tratamentos alopáticos..."(Hahnemann "Tratamento das moléstias Crônicas" em Barollo pg 60).

 

V. POSIÇÃO DE ALGUNS PAÍSES SOBRE A HOMEOPATIA

5.1. A posição francesa

Em abril de 1984, a Academia Nacional de Medicina da França aprovou o relatório dos acadêmicos Hugues Gounelle de Pontanel e Herbert Tuchman Duplessis sobre homeopatia, cujo teor é o seguinte:

NÃO HÁ CONCESSÃO DE UM DIPLOMA DE HOMEOPATIA PELAS FACULDADES DE MEDICINA

"Não negamos aos médicos o direito de acreditar nas virtudes da medicação dita homeopática. Pensamos, contudo, ser um dever de consciência protestar vigorosamente contra o projeto de concessão de um diploma de Homeopatia pelas escolas médicas, o que significaria oficializar seu ensino. A prescrição homeopática. no estado atual da ciência, NÃO É UM ATO RACIONAL, pois os fundamentos científicos de sua eficácia não foram comprovados. Não há qualquer razão para que a medicação homeopática não seja submetida às mesmas regras científicas de análise que se aplicam às outras terapias, e que não se faça um estudo controlado de sua ação com placebos, a fim de afastar o fator psicológico na sua atividade. É necessário lembrar que as autoridades do Ministério da Saúde só autorizam a comercialização de qualquer medicamento quando sua eficácia farmacológica é comprovada em conjunto com a ausência de efeitos secundários, por critérios objetivos. E uma comprovação que exige meses e até anos de trabalho. Por que os remédios homeopáticos fogem a esse imperativo?

O fundador da homeopatia imaginou que quantidades infinitesimais de um extrato vegetal ou mineral pudesse ter imensas virtudes curativas. Por conseguinte, os homeopatas tratam seus doentes com preparações diluídas à milionésima ou até à bilionésima escala; não é possível, para farmacólogos e toxicólogos, aceitar que a atividade terapêutica de uma substância aumenta com o seu grau de diluição, quando o que se verifica nas experiências é justamente o contrário.

De acordo com o nosso ponto de vista, trata-se de um logro, imposto à opinião pública e ao paciente, pretender induzi-los a crer numa terapia homologada por um diploma oficial das faculdades de medicina. É necessário sublinhar ainda o risco, para os doentes, de uma terapia cujo valor ainda não foi demonstrado. Seria oficializar a varinha de condão, ao lado do estetoscópio.

No estado atual de nossos conhecimentos é inoportuno autorizar a emissão de um diploma de Homeopatia pelas faculdades de medicina, como reconhecimento de uma prática cujas concepções se baseiam na metafísica alemã do século XVIII"(Non em Ladmann pg 61).

 

5.2. A posição inglesa

Em 1986, no seu relatório sobre medicinas alternativas, a British Medical Association afirmava que a homeopatia não tem base racional. Tendo entre seus pacientes a rainha Elisabeth e outros membros da família real britânica, a homeopatia tinha grande popularidade no Reino. O próprio príncipe Charles, usuário do método homeopático, pediu um estudo em profundidade das medicinas não ortodoxas.

A British Medical Association promoveu uma avaliação detalhada através de uma comissão formada pelas maiores sumidades médicas e farmacológicas da Inglaterra.

Em 1984, após extensa e numerosa análise dos dados obtidos, chegou-se à seguinte conclusão:

"O tratamento racional e científico no campo da medicina começou no século XIX. A homeopatia tem sua origem no século XVIII, quando, provavelmente, as curas alopáticas ocasionavam mais mortes do que melhoras no estado de saúde. Ao final do século XIX, a homeopatia era uma filosofia estática, inalterada, enquanto a pratica médica evoluía, baseada na compreensão da patologia, da fisiologia e da farmacologia. Hoje em dia, os próprios homeopatas tem de curvar-se a essa evidência no tratamento de emergências cirúrgicas e clínicas e de doenças agudas e crônicas mais graves, que, sem os recursos da medicina ortodoxa, seriam sério perigo de vida. Os remédios homeopáticos só têm indicação naquelas doenças que normalmente se auto-resolvem, isto é, evoluem sem a intervenção médica.

Não existe base fisiológica para justificar a terapia homeopática, que consiste na administração de algumas gotas de remédios tão diluídos, que, nas diluições mais avançadas (as mais usadas), não contêm qualquer traço da molécula original. Os homeopatas clamam que no processo de diluições e sucussões sucessivas, libera-se uma energia vital e imaterial, e que essa energia é terapêutica. Não achamos nenhuma evidência para essa crença. Se o médico homeopata acredita na realidade dessa força imaterial, ele pode transmitir essa crença ao seu paciente. O efeito placebo seria então a explicação do sucesso alcançado e compartilhado pelo homeopata e seu paciente" (Alternative em Landmann pg 62).

 

5.3. A posição soviética

Em carta oficial, o ministério da Saúde da URSS declarou:

"A homeopatia baseia-se numa representação idealista e não em fundamentos científicos. Ao longo de seus cento e cinquenta anos de existência, ela não foi enriquecida por qualquer dado científico e utiliza fundamentalmente os princípios, os métodos e os procedimentos de cura estabelecidos desde o seu aparecimento. O arsenal dos meios utilizados pelos homeopatas permanece inalterado.

A medicina científica, fundamentada na compreensão materialista da morbidade e da cura como processo complexo e multiforme da correlação do organismo com seu meio ambiente, atingiu resultados extremamente satisfatórios na prevenção, detecção precoce e cura de inúmeras doenças, até então endêmicas. Os antibióticos, as preparações bacteriológicas, as vacinas e os soros disponíveis, após experimentação precisa e pesquisas científicas cuidadosas, permitiram o sucesso obtido pelas organizações de saúde na erradicação da varíola, da poliomielite, e no retrocesso brutal de outras doenças infecciosas.

Em nosso país, entre mais de meio milhão de médicos, os métodos e meios homeopáticos só são aplicados por grupos insignificantes. Isto testemunha que a grande maioria dos médicos não acredita e não participa nesses meios. E mesmo os que participam, fazem-no em conjunto com a medicina científica, o que retira da homeopatia seu caráter de independência" (Aulas em Landmann pg 63).

VI. CASOS DE EXPERIÊNCIAS

Estas experiências não conseguem ser concludentes para diferenciar a eficácia dos medicamentos homeopáticos em relação aos placebos.

Em Praga, 1828, o Dr. Marenzelle foi encarregado de tratar pacientes no Hospital Militar de Viena através da homeopatia. Supervisionado por médicos alopatas, ele cuidou de 43 pacientes sem que nada pudesse ser verificado contra ou a favor da homeopatia. (Landmann pg 109).

Na França, no Hospital L’Hotel Dieu em Paris, o Prof. Armand Trousseau deu a um grupo de pacientes remédios homeopáticos, e a outro grupo, placebo de miolo de pão. Muitos doentes reagiram favoravelmente ao placebo, o que indicou que a homeopatia poderia agir por sugestão:

"Dessa primeira parte de nossas experiências é permitido concluir que as substâncias mais inertes, tais como o amido, administradas homeopaticamente, agem sobre a imaginação dos doentes produzindo efeitos idênticos aos dos medicamentos homeopáticos mais possantes" (Trousseau em Landmann pg 109).

Em 1914, o Dr. Chadwell experimentou a homeopatia contra a escarlatina. Numa epidemia, um em cada dois doentes recebeu beladona homeopatizada. Os resultados foram decepcionantes.

Alguns anos mais tarde, o Dr. Wesselhoeft também quis tentar o método homeopático no Hospital Infantil de Boston. Suas observações não mostraram diferença entre as crianças tratadas com beladona e as outras. O mesmo Wesselhoeft realizou um teste análogo para o combate da coqueluche. O resultado também foi decepcionante (Aulas em Landmann pg 110).

Em 1938, os Drs. Bayer e Schilsky, numa clínica infantil de Hamburgo, também tentaram usar o método homeopático contra a coqueluche. Em 170 crianças, uma em cada duas era tratada por homeopatia. Os resultados foram nulos. (ibid pg 110).

Extensa pesquisa foi realizada na Alemanha nazista, acompanhada pelo Dr. Fritz Donner, antigo homeopata que foi escolhido para supervisionar as pesquisas no Reich. O Dr. Donner, após dois anos de pesquisa, chegou a conclusão da inocuidade total do método homeopático. Seus relatórios foram, porém, censurados e não puderam ser publicados a não ser muitos anos após a queda do nazismo. E assim mesmo, em publicação francesa, porque nenhuma revista homeopática alemã aceitou o trabalho. (Donner em Landmann pg 110).

Foram realizadas experiências em 10 pacientes com hipertensão arterial, durante 16 semanas, alternando tratamento alopático, homeopático e placebo. Os remédios homeopáticos eram prescritos por médicos homeopatas.

A análise dos resultados mostrou que só houve diminuição significativa da pressão arterial nos casos tratados com remédios alopáticos. No que se refere à melhora sintomática, os resultados foram idênticos com o uso de homeopatia, alopatia ou placebo. (Aulas em Landmann pg 110).

Foram realizadas experiências em pacientes com artrite, utilizando placebo, medicação homeopática e alopatia. Todos os resultados foram inconcludentes (ibid pg 111).

Alguns ensaios sobre o ópio C15 e iperita C30 sobre o trânsito intestinal e feridas de gás mostarda, respectivamente, são apontados como resultados de melhoras reais decorrentes da homeopatia. Porém, estes dados são considerados insuficientes perante o número de experiências realizadas, e pelo seu caráter isolado e sem metodologia. (Aulas em landmann pg 111).

VII. CONSIDERAÇÕES

7.1. Identificação de doutrina com o nazismo

Em 8 de agosto de 1937, no Congresso Internacional da Sociedade de Homeopatia em Berlim, Hudolph Hess criticou os que se opunham à homeopatia, falando que o Reich tomava para si a proteção deste congresso. Em contraste com a posição de todos os outros governos.

Assim, a homeopatia cresceu consideravelmente na Alemanha de Hitler. O Dr. Fritz Donner, antigo homeopata, foi escolhido para supervisionar as pesquisas no Reich. Após dois anos de trabalho, chegou à conclusão da inocuidade total do método homeopático. Escreveu um extenso relatório às autoridades superiores, mas suas conclusões não foram levadas em conta e a publicação de seus trabalhos foi proibida (Rouzé em Landmann pg 66).

 

7.2. Ligação entre a Homeopatia e o Swedenborguismo

Emanuel Swedenborg (1688-1772) foi discípulo de Jacob Boehme, astrólogo, gnóstico e precursor do espiritismo.

Na América do Norte do séc. XIX, o swedemborguismo encontrou na homeopatia um sistema médico que a completava. A homeopatia encontrou no Swedemborguismo uma moldura religiosa para expandir suas ideias. Os grandes homeopatas americanos do século passado, como Hans Gram e Hering eram adeptos de Swedemborg e a indústria farmacêutica homeopática e a imprensa homeopática pertenciam a adeptos da seita (Campbell).

Swedemborg acreditava que a natureza essencial do homem era determinada por um impulso espiritual básico, cuja alteração era a causa das doenças. O imaterial determinava o material por uma relação mística.

 

7.3. Misticismo da homeopatia Kentiana

James Tyler Kent (1849 - 1916) foi um importante homeopata americano.

Ele cria na origem moral das doenças, o que vai de encontro com as teorias espíritas das doenças, influenciando a sintomatologia homeopática atual. Pela sua concepção metafísica das origens das doenças, fica clara sua postura em relação às dinamizações: ele recomendava altíssimas diluições, até a diluição C 1000).

Cria também que a homeopatia era a única verdade em medicina. Era ímpio questionar a homeopatia, pois era uma ciência inspirada por Deus. As doenças seriam resultado da transgressão da ordem divina. No fundo, dizia que as doenças crônicas eram consequências do Pecado original (Kent, Lição XVIII) (Landmann pg 89).

Assim, teremos na sintomatologia características psicológicas, como podemos ver em alguns trechos do Guia Homeopático de Matéria Médica Clínica, do Dr. Nilo Cairo:

Nux Vomica

"... Moreno, cabelos pretos, magro, colérico, irritável, impaciente, teimoso, nervoso, melancólico, de hábitos sedentários e preocupações de espírito: tal é o doente de Nux Vômica. Homens de negócio..." (Cairo pg 487).

Pulsatila Nigricans

"... Constituição e tipo: É um remédio mais adaptado às constituições femininas, apesar de ser indicado também para homens. É indicado para mulheres louras, claras e de olhos azuis. O caráter das pacientes é dócil, silencioso e submisso. É uma paciente triste e sem coragem, que chora por um nada e a propósito de tudo. Procura o consolo das pessoas que a ouvem..."(Cairo pg 537).

 

7.4. Condenações à medicina moderna

Uma condenação bastante irracional por parte dos homeopatas é a respeito das vacinas. Eles acusam as vacinas de alterarem a "energia vital" a ponto de poderem causar tumores:

"... Acabamos de dizer que as doenças infecciosas são válvulas de escape que permitem que não se agrave um desequilíbrio já existente. O que aconteceria se para toda doença infecciosa já tivesse sido encontrada uma vacina? O organismo precisaria de outras válvulas de escape, novas doenças surgiriam, porém desta vez mais graves, como são as doenças degenerativas ou as hipertrofias (tumores)" (Barollo pg 124).

Outro ponto já citado é o de acusar os remédios alopáticos de até inviabilizar a cura das doenças.

Os homeopatas são contra a adição de flúor na água por causa de sua doutrina "energética", prática tão utilizada:

"A Homeopatia não pode concordar com a imposição a toda uma população, de tomar água com flúor ou outro medicamento qualquer."

Igualmente existiu uma oposição à utilização de restaurações dentárias feitas de amálgama de prata, pois alegavam que a amálgama interferia com o tratamento homeopático. (ibid pg 125).

 

7.5. Ligação da homeopatia com o espiritismo no Brasil

Como já foi dito, há uma forte coerência doutrinária entre o espiritismo e a homeopatia. Isto é observado pela ligação entre homeopatas e espíritas no Brasil, como podemos ver nas citações dos anais do XII Congresso Brasileiro de Homeopatia de 1972:

"... Por outro lado, o crescente interesse da população pela Homeopatia tem como principal fonte (maioria absoluta) o desenvolvimento muito grande que se vem observando do movimento religioso de instituições ligadas ao Espiritismo, Umbandismo, etc. (religiões mediúnicas), nas quais, por crenças que não nos compete analisar no presente trabalho, são receitados complexos e medicamentos homeopáticos por leigos".

"... A homeopatia reparte-se assim em: uma medicina dos pobres (instituições caritativas espíritas), exercida por leigos que administram complexos, e, de outro lado, uma terapêutica, de consultórios particulares..." (Lafetá pg 254).

VIII. CONCLUSÃO

A homeopatia possui total coerência com a doutrina de Paracelso, Van Helmont e Stahl, que são doutrinas herméticas, mágicas e gnósticas.

O método homeopático das diluições infinitesimais e a própria doutrina homeopática da origem das doenças mostra uma concepção imaterial das doenças e dos remédios. Nesta doutrina é negada a causa material das doenças e a lógica de causa-efeito. Isto mostra o total afastamento da homeopatia com a ciência.

O método das dinamizações só pode ser coerente com uma doutrina esotérica, a qual afirma existirem "energias vitais" imateriais aprisionadas em todos os seres materiais (orgânicos e minerais).

A teoria das doenças crônicas, tão bem explorada por Kent, não pode deixar de ser vista como uma fuga de Hahnemann ao fracasso de sua doutrina. Uma conotação espiritualista desta teoria tentou fazê-la menos artificial ao esquema homeopático.

O principal argumento de Hahnemann para a teoria do similia similibus curantur, o caso da quinina para o tratamento da febre, é comprovadamente falso, sendo o mecanismo de ação da quinina o oposto ao pregado pela homeopatia.

As experiências feitas para provar a eficácia do método homeopático não conseguem fazer uma diferenciação palpável entre o medicamento homeopático e o placebo.

As ligações da Homeopatia com a seita de Swedenborg (USA), com as seitas mediúnicas e com o nazismo mostram a afinidade da homeopatia com o romantismo/ misticismo.

"Hahnemann, esta rara combinação de filosofia e sabedoria, cujo sistema deverá eventualmente provocar ruína das mentes comuns abarrotadas de receitas, mas que ainda é muito pouco aceito pelos clínicos, e muito mais evitado que investigado" (Goethe, Zerstr Blatter, vol II)

Por fim, podemos fazer uma consideração a respeito da tentativa de propor ao mundo duas correntes de pensamento, uma racionalista e outra mística esotérica. Portanto, encontraremos as seguintes relações:

Química-Alquimia
Astronomia-Astrologia
Medicina-Homeopatia (no Ocidente)
Matemática-Numerologia
etc...  

A Homeopatia é, em suma, uma concepção esotérica espiritualista do mundo, aplicada à arte de curar.

IX. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Non a Délivrance d’un diplome d’homeopathie par les Facultés de Medicine. Bull. Acad. Nat. Med. Paris 168, 429-434, 1984.
  • Alternative therapy- Report of the Board of Science and Education. Brit. Med. Assoc. London, 1986.
  • AULAS, J.J. & cols. "L’Homeopathie. Ed. Medicales Roland Bettex. Paris, 1985.
  • BAROLLO, C.R. "Aos que se tratam pela Homeopatia" (7ª edição) ed. Typus, 1995
  • CAIRO, N. "Guia de Medicina Homeopática" (21ª edição), ed. Livraria Teixeira LTDA. São Paulo, 1972.
  • CAMPBELL, A "The two faces of homeopathie. Robert Halle, ed Londres, 1984.
  • DANCIGER, E. "Homeopatia, Da alquimia à Medicina" ed. Xenon, 1987
  • DANTAS, F. "O que é a Homeopatia", Ed. Brasiliense
  • DONNER, F. "Observations faites lors de verifications relatives aux methodes de l’homeopathie" Cahiers de Biotherapie, 21, 5-26, 1969.
  • EIZAYAGA, F. X. "Tratado de Medicina Homeopática" Buenos Aires, ediciones Marecel, 1972.
  • HAEHL, R "Samuel Hahnemann, his life and work", London Ed. Homeopathic Publishing Company, 1922 v.I e II
  • HAHNEMANN, S. "Organon da arte de curar" (2ª edição). São Paulo, ed. CEBES-HUCITEC, 1981
  • KENT, J. T. "Filosofia Homeopática"Madrid, Casa Editorial Baily-Baillière. S.A., 1926.
  • LANDMANN, J "As Medicinas alternativas: Mito, Embuste ou Ciência?" Ed. Guanabara, 1987(?).
  • NOVAES, R.L. "O tempo e a ordem sobre a homeopatia", Ed. Cortez Editora, 1989
  • PESET, J.L. "Terapéutica y Medicina Preventiva"in Entralgo,P.L. "Historia Universal de la Medicina. Barcelona, ed. Salvat Editores, S.A., 1973. v.5
  • ROUZÉ, M. "Homeopathie, Les voyances du double aveugle" Science et vie, 822, 45-49, 1986.
  • TROUSSEAU, A. E. Gouraud, H. "Experiences homeopathiques tentées a l’Hotel Dieu de Paris."Jounal de Connaissances Medico-Chirusgicales, 7, 238-241, 1834

 

 

Neto, Hermann Windisch - "Homeopatia : ciência ou superstição"
MONTFORT Associação Cultural

 
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