| Doutrina e Arte |
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O comum das pessoas pensar que a arte tem por objetivo apenas agradar. Se lhes for dito que as obras artísticas podem ser, e são, potentes meios de difusão de ideias, elas surpresas duvidam. E é este "estado de inocência ideológica" que facilita sobremaneira a assimilação de falsos sistemas religiosos, filosóficos e ideológicos através da arte. 1o ) A divindade está presa no universo. O infinito está contido no finito. 2o ) Evolucionismo dialético. Tudo se transforma pelo choque dos princípios contrários e iguais, componentes de todo ser. 3o ) Dualismo. Bem e Mal, Luz e Trevas, Belo e Feio, Matéria e Espírito são pólos opostos e idênticos, constituintes de toda realidade. 4o ) Igualitarismo radical. No fundo todas as coisas são uma só: a divindade 5o ) Relativismo. Nada tem valor estável. 6o ) "Analogismo". O mundo criado pelo demiurgo é a caricatura do pléroma divino ( conjunto das emanações da divindade). A realidade inferior é imagem invertida, como num espelho deformador, da realidade divina. 7o ) Magia. As leis que governam o mundo são ilusórias. As verdadeiras leis são as que regem secretamente as relações das partículas divinas imersas no mundo material. Escher vê o universo finito não só como uma prisão do infinito, mas também como algo isento de espaços vazios. Tudo é ocupado por formas. Tudo é feito de anjos e demônios, bem e mal, luz e trevas. No mundo concebido por Escher, as figuras se completam, tendo o mesmo valor gráfico e, evidentemente, o mesmo valor simbólico. O bem equivalente ao mal, a luz às trevas. Tudo tem o mesmo valor metafísico. À medida em que se caminha para a borda do círculo, há a tendência para eliminar totalmente a distinção de elementos, sugerindo uma síntese unificadora dos anjos e demônios, do bem e do mal, da luz e das trevas. Fica bem clara, portanto, a mensagem gnóstico-dualista do autor. Outra ideia fundamental da gnose presente na obra do artista é a dialética, ou seja, a equivalência dos contrários. Escher simboliza essa ideia não só igualando anjos e demônios, como também equiparando o superior ao inferior, o interior ao exterior, o dia à noite, a vida à morte, o sonho à realidade, o subir ao descer. Deste modo, Escher se torna uma espécie de Zenon da gravura. Suas obras são autênticos sofismas visuais, onde artifícios de perspectiva criam ilusões óticas em que os contrários parecem igualar-se. Exemplo impressionante é a obra "Queda d’água", na qual a água, correndo sempre para baixo, acaba "subindo" para despencar de novo de grande altura, numa espécie de moto-perpétuo enganador. Tudo isso conduz ao relativismo total, que Escher representa na obra "Subindo e descendo", na qual monges sobem e descem escadas intermináveis, que chegam todas sempre ao mesmo ponto. A ideia gnóstica de que o mundo criado é uma imagem invertida do mundo do pléroma divino foi simbolizada por muitos autores através do espelho. Escher retoma esse símbolo com uma habilidade extraordinária. Para a gnose, o mundo criado pelo demiurgo está em constante evolução dialética. Uma metamorfose universal faz com que os seres passem do mundo inanimado para o animado, deste para o racional e para o divino. Também ao tema da metamorfose, Escher dedicou várias obras. Finalmente o sentido gnóstico, e portanto anti-católico, desse artista, fica evidente na obra em que corpos mumificados de padres têm sob os pés o dístico: " Ite, missa est". "Ide, a missa acabou", insinuando o fim da religião católica. Quão trágica se torna essa frase da liturgia da missa tradicional, se contemplamos o estado catastrófico da religião em nossos dias ... |
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