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ENTREVISTA: Dom Bruno Costa, OSB, ecônomo do Mosteiro de São Bento em SP, fala da Missa Tridentina PDF Imprimir E-mail
Dom Bruno CostaDom Bruno Costa, jovem monge beneditino, é o celebrante da Missa de São Pio V na Basílica Nossa Senhora da Assunção, do Mosteiro de São Bento em São Paulo. Na entrevista a seguir, ele explica a relevância da liturgia tridentina na vida católica. Segundo o sacerdote, a importância passa longe de meras questões estéticas e também não pode ser encarada como coisa de pessoas que se apegam a coisas antigas, pelo simples fato de serem velhas, como se tivessem um gosto particular e especial por antiquários. Há coisas que não são velhas e nem novas, pelo simples fato de serem eternas não envelhecem, ensina o prelado.


Além do mais, é uma máxima da Igreja: cremos naquilo que rezamos. Ora, é fora de qualquer dúvida que a alteração da liturgia favoreceu a introdução de doutrinas e práticas na Igreja em desacordo com o catolicismo. Este dado reforça ainda mais a importância de difusão e propagação da missa de sempre, como antídoto a heterodoxias e fonte de graças para a restauração da vida católica. Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista concedida ao Mater Dei.

O senhor é um dos poucos padres da cidade de São Paulo, fora dos grupos ditos tradicionalistas, que celebra a Missa de São Pio V. Como descobriu esta missa?


Mesmo antes do Motu Proprio do Papa Bento XVI esclarecer que todos os padres podem celebrar a missa tridentina, sendo desnecessária a anuência do bispo, D. José, monge do Mosteiro recentemente falecido, já rezava a missa para a Associação Católica Kopling, um grupo de descendentes de alemães. A celebração ocorria uma vez por mês em um local bem precário, na verdade uma antiga garagem adaptada. Muito bem, com o advento do Motu Proprio, este grupo procurou D. Odilo, cardeal de São Paulo, pedindo um local mais condigno para a liturgia. Na ocasião informaram que já tinham o celebrante. Ao tomar conhecimento que era D. José, D. Odilo afirmou que o mais indicado, então, seria que a missa fosse realizada no próprio Mosteiro de São Bento. Foi assim que a missa tridentina passou a ser celebrada no Mosteiro.

No entanto, o estado de saúde de D. José começou a se deteriorar. Em decorrência do Mal de Alzheimer, ele esquecia partes da missa. Enfim, chegou um momento em que ele, definitivamente, não tinha mais condições. D. Afonso, outro monge do Mosteiro, um latinista de primeira, aprendeu rápido e passou a ser responsável pela missa. Algum tempo depois, D. Afonso foi para Roma fazer mestrado. Foi então que o Padre Jonas, da Administração Apostólica São João Maria Vianney, nos socorreu e passou a ser o responsável pela celebração. Na verdade, mesmo dentro do Mosteiro havia e há pessoas que se opõe à celebração da missa tridentina. Padre Jonas morou algum tempo no Mosteiro e pude aprofundar o conhecimento sobre a liturgia tradicional. Além do mais, o exemplo do Padre Jonas, com sua fé e firmeza no sacerdócio, me ajudou muito. Nessa época, como eu era diácono, pedi ao Padre Jonas para ser o diácono na missa. Ele afirmou que não seria possível, pois, então, teria que ser uma missa solene, com subdiácono. Mas disse que eu poderia ficar no presbitério e ajudar na distribuição da comunhão. Dali possuía uma visão privilegiada de toda a sacralidade da missa, firmando a minha vontade de, uma vez ordenado, rezar esta missa que tantos benefícios espirituais trouxe à Igreja.

No dia 06 de agosto de 2011 – Festa da Transfiguração de Nosso Senhor – fui ordenado sacerdote pelo nosso Cardeal D. Odilo. Padre Jonas disse que eu, então, deveria assumir a missa do Mosteiro. Mas eu ainda não me sentia preparado. Demorou algum tempo até que eu me sentisse plenamente apto para celebrar a missa tridentina.

Qual o impacto que a missa tridentina teve na sua vida espiritual?  E na dos fiéis com os quais o senhor tem maior proximidade?


O impacto foi muito grande na minha vida. É o meu alimento espiritual. Ao celebrar a missa, me sinto imerso em toda a tradição da Igreja. São Bento construiu a nossa ordem sobre um tripé: eucaristia, padres da Igreja e Sagradas Escrituras. A liturgia é a fonte e o ápice da vida cristã. Portanto, se a missa não for celebrada condignamente, não teremos todos os seus efeitos naturais e próprios. Os abusos na liturgia que vemos hoje são responsáveis, em grande parte, pela situação dramática que vivemos: escassez de vocações, abandono de religiosos, êxodo para as seitas e por aí vai. Talvez não fosse a intenção, mas a reforma litúrgica acarretou em dessacralização da missa, como se fosse simplesmente um encontro comunitário para se sentir bem. A substituição da ideia de sacrifício, para uma simples ceia. É um culto para homem e não para Deus. Isso é errado. A nossa religião é a do Deus que se fez homem e não do homem que se faz Deus. Entretanto, muitos padres, mesmo que não rezem a missa de São Pio V, procuram manter viva a ideia de sacrifício e sacralidade da missa.

Com relação aos fiéis, os efeitos também são enormes e impactantes. Dou apenas um exemplo. Há pouco tempo, logo após assistir a missa, uma moça me procurou perguntado por que nunca tinha visto aquela liturgia. Ela se sentia verdadeiramente lesada por não ter tido antes acesso a missa tridentina.

Mesmo depois do Motu Proprio, muitos bispos criam obstáculos para a celebração da missa de São Pio V. O que pensa? Como os padres, diante dessa situação, devem agir?


De início, pensava que eram casos isolados e pontuais. Hoje, tendo a acreditar que se trata de uma coisa orquestrada mesmo, uma verdadeira perseguição. É uma situação que requer fé e coragem. Aliás, Nosso Senhor nunca prometeu vida fácil para aqueles que o seguissem. Os padres que se dispõe a rezar a missa tridentina serão alvos de perseguições e proibições e até de isolamento. Você precisa ter em mente que deve procurar agradar a Deus e não aos homens. Mas os fiéis precisam ajudar os padres. Em muitos casos, há fiéis que pedem a missa e, depois de obter, simplesmente não vão. Os fiéis devem ficar ao lado do padre. Devem pedir a missa. Insistir, mesmo que encontrem portas fechadas.

Algumas pessoas afirmam que a Igreja passa pela sua maior crise ou turbulência. O senhor concorda com esta leitura?


Precisamos tomar cuidado para não romantizar o passado. A Igreja sempre teve crises e problemas. Mas, objetivamente falando, estamos num momento muito difícil. Coisas básicas de nossa fé estão sendo solapadas. O mais incrível é que muitos dentro da Igreja não enxergam esta situação claríssima. Aqueles que perderam a visão do espiritual apelam para a sociologia, para não ver o óbvio. Estamos caminhando para um humanismo sem Deus. Tirando Cristo do centro, tudo desaba. A qualidade dos fiéis é lamentável, pois, em sua maior parte, suas crenças destoam do que a Igreja sempre ensinou. Há um relativismo e a institucionalização do pecado. Para aquele que se mantém fiel, não há contato de armas, mas, como disse muito bem o papa Bento XVI, há o martírio da ridicularização.

Para ter ideia do estado das coisas, dentro em breve transcorrerão os 500 anos da revolta de Lutero. Há rumores fortíssimos de que esta data será comemorada na Igreja Católica. Lutero será saudado como um grande reformador, um homem visionário, um humanista. Se ocorrer mesmo esta comemoração, será um absurdo. A crise é muito grande, mas Nosso Senhor prometeu que as portas do inferno não prevalecerão sobre a Igreja.

O Concílio Vaticano II (1962-1965) trouxe uma verdadeira febre por mudanças, o chamado aggiornamento. A Igreja deve se atualizar, abrir-se ao mundo?


Tenho um amigo que diz que a Igreja abriu tanto as portas que muita gente foi embora. A atualização da Igreja é sempre necessária no sentido de que os problemas do mundo devem ser devidamente compreendidos, para que a Igreja dê as respostas adequadas. Mas a essência da nossa fé, os dogmas, não é passível de atualização. Há coisas que não se atualizam, pois são sempre atuais. Não são novas e nem velhas, são perenes e imutáveis.

Há uma discussão sobre o valor dos textos do Concílio Vaticano II. Alguns estudiosos que se debruçaram sobre o tema afirmam que ele não tem um caráter dogmático, mas apenas pastoral. O senhor concorda?


Bom, o próprio Concílio se define como pastoral. De forma muito clara, o Concílio declarou que não iria proclamar nenhum dogma de fé, mas apenas cuidar de questões que deveriam ser observadas no trabalho pastoral da Igreja. Ou seja, uma questão muito mais de forma, de procedimento, do que de conteúdo.

Há incompatibilidades de alguns textos do Concílio Vaticano II com a tradição da Igreja, ou seja, com aquilo que a Igreja sempre ensinou? Como, por exemplo, sobre a liberdade religiosa?


Realmente, comparados com a tradição há alguns textos do Concílio que são bastante problemáticos. Citaria o documento “Unitatis Redintegratio”. Tanto é assim que o papa Bento XVI, quando ainda era o Cardeal Ratzinger e Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, se viu obrigado a fazer uma correção do termo “subsiste”. No citado documento conciliar afirma-se que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica. Ora, esta afirmação implica que a Igreja Católica não é a única Igreja de Cristo, mas uma entre muitas. Subsiste, ou seja, existe também e não apenas exclusivamente lá. Esta posição é contrária à fé católica. Cristo só tem uma esposa.

Mas o problema maior dos textos conciliares é de forma. Se ele não foi escrito a quatro ou seis mãos, então, foi escrito por alguém esquizofrênico. Dizem que devemos obedecer ao Concílio. Mas obedecer ao quê? Muitos documentos são possíveis três ou quatro interpretações. A linguagem não é direta. Se há possibilidade de mais de uma interpretação de um texto, significa que a linguagem não é boa. Por exemplo, a reforma litúrgica não está prevista em nenhum dos textos conciliares. E nem muitas das aberrações e extravagâncias doutrinárias. Mas, no entanto, se analisarmos com cuidado, veremos que as sementes estão lá, nos textos conciliares.

Os católicos de maneira geral quase não fazem apostolado e defendem muito pouco a sua fé. Estão sempre dispostos a ceder. A que o senhor atribui esta situação? Como remediar este estado de coisas?


Voltamos ao que disse no início. A liturgia é a fonte e o ápice da vida católica. Sem uma missa celebrada de forma correta em que sacralidade seja evidente, não obteremos progresso. Uma missa correta é base de uma boa catequese. Por sua vez, pessoas bem catequizadas serão bons católicos e formarão famílias católicas. Hoje, em boa parte, perdeu-se o espírito missionário. Existe um mundo que não conhece Nosso Senhor Jesus Cristo e devemos conquistar este mundo para o nosso Deus. Porém, vejo uma enorme acomodação. Por mais incrível que possa ser, numa cegueira absurda, muitos acham que está tudo bem, mesmo com este novo paganismo que rege os costumes de nossa sociedade.

Qual o papel que o senhor atribui ao Monsenhor Lefebvre na história recente da Igreja?


Ele teve um papel importantíssimo. Assemelha-se aos profetas do Antigo Testamento que tinham a coragem de apontar os problemas e os erros, quando todos achavam que as coisas estavam boas. Portanto, nesse sentido, a sua contestação foi profética. Ele foi uma daquelas pessoas que o Espírito Santo suscita de tempos em tempos, para ajudar a guiar a Igreja. 

 

 

 
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