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Proselitismo ou Evangelização? – Por Padre Carlos Maria de Aguiar

Paramentos Litúrgicos
Estamos no fim da segunda década do século XXI, e a Igreja continua sua missão de evangelizar. Evangelizar é levar o anúncio da Boa-Nova de Nosso Senhor Jesus Cristo. Logo, a missão essencial da Igreja é evangelizar. No decreto Ad Gentes, do Concílio Vaticano II, logo em seu Proêmio, encontramos a expressão máxima do que seja a evangelização, que é a missão da Igreja, segundo a definição da própria Igreja:

A vocação missionária da Igreja

1. A Igreja, enviada por Deus a todas as gentes para ser «sacramento universal de salvação», (1)[1] por íntima exigência da própria catolicidade, obedecendo a um mandato do seu fundador (2)[2], procura incansavelmente anunciar o Evangelho a todos os homens. Já os próprios Apóstolos em que a Igreja se alicerça, seguindo o exemplo de Cristo, «pregaram a palavra da verdade e geraram as igrejas» (3)[3]. Aos seus sucessores compete perpetuar esta obra, para que «a palavra de Deus se propague ràpidamente e seja glorificada (2 Tess. 3,1), e o reino de Deus seja pregado e estabelecido em toda a terra.

No estado atual das coisas, de que surgem novas condições para a humanidade, a Igreja, que é sal da terra e luz do mundo (4)[4], é com mais urgência chamada a salvar e a renovar toda a criatura, para que tudo seja instaurada em Cristo e n’Ele os homens constituam uma só família e um só Povo de Deus.

Por isso, este sagrado Concílio, agradecendo a Deus a grandiosa obra já realizada pelo esforço generoso de toda a Igreja, deseja delinear os princípios da atividade missionária e reunir as forças de todos os fiéis, para que o Povo de Deus, continuando a seguir pelo caminho estreito da cruz, difunda por toda a parte o reino de Cristo, Senhor e perscrutador dos séculos (5)[5], e prepare os caminhos para a sua vinda.

Restou claro e cristalino, sem necessidade de qualquer interpretação ou análise hermenêutica, que a missão da Igreja Católica é, em dez pontos principais: (1) essencialmente evangelizadora; (2) segue um mandato do Seu Fundador; (3) deve incansavelmente se dirigir a todos os homens; (4) aos sucessores dos apóstolos é incumbida a missão de continuar a evangelização iniciada com os apóstolos; (5) que a evangelização é de caráter urgente; (6) que o Reino de Deus deve ser pregado e estabelecido em toda a Terra; (7) que a evangelização tem como escopo salvar e restaurar toda criatura; (8) que tudo deve ser instaurado em Cristo, formando uma só família; (9) que o caminho a seguir é a cruz e (10) que a Igreja prepare os caminhos para a nova vinda do Senhor Jesus.

Não obstante o Concílio Vaticano II tenha se declarado, excepcionalmente, um evento eclesial de caráter pastoral, ele definiu –no bojo do trecho do referido decreto acima mencionado -, para a Igreja diante mundo moderno, as linhas fundamentais da nova evangelização, que são as mesmas que nortearam a Igreja em mais de dois mil anos, de forma peremptória. Nos dez pontos acima mencionados, que estão insertos no decreto conciliar Ad Gentes, a Igreja renovou os propósitos que sempre fundamentou a evangelização aos povos em todos os cantos do mundo, desde a era apostólica, passando pela Europa, Ásia, Américas e Oceania. E essa evangelização se perpetua na linha da História, pois a cada geração deve ser transmitida a Fé de maneira intacta e absoluta, sem qualquer tipo de alteração ou deformação, até a consumação dos tempos. O objetivo da evangelização é tornar o reino de Deus conhecido e implantá-lo até que o Senhor Jesus retorne, em sua glória, para julgar toda a humanidade.

Ora, essa missão primordial da Igreja começou a ser torpedeada e solapada de dentro para fora dela mesma. Esse fenômeno malévolo se manifestou no seio do próprio clero católico, como resultado de uma distorção teológica, fruto de um equívoco exegético e hermenêutico da Palavra de Deus. O autêntico entendimento e verdadeira concepção desta missão de evangelizar sofreram um esvaziamento diante de um pensamento revolucionário que colocava não mais a implantação do Reino de Deus como meta da humanidade, mas a implantação de um reino humano onde o próprio homem era o centro, e Deus uma mera especulação teórica e até mesmo sob certo aspecto, supersticiosa. Essa mudança de concepção no pensamento do próprio Magistério da Igreja, contaminado pelos novos e nefastos sopros do liberalismo e do modernismo, conduziu a compreensão do que seja a evangelização como mandato de Cristo, a um novo e estranho entendimento de que o anúncio do Reino de Deus deve se condicionar à consciência do homem, à manutenção da sua cultura nativa e em conformidade com a ‘evolução’ moral que se desenrola no tempo e nas sociedades, ao arrepio da perenidade e imutabilidade da Moral insculpida no Decálogo e aperfeiçoada no Evangelho. Ou seja, a evangelização – como missão fundamental e primordial da Igreja – ficou condicionada ao politicamente correto e aos sentimentos relativamente humanos que, em suma, desconhecem a realidade do pecado, da redenção de Cristo e da salvação das almas.

Criou-se, hoje, um novo discurso de que não se deve fazer ‘proselitismo’, conforme afirmam alguns pastores áulicos do pensamento moderno dentro da Igreja, em confronto a uma nebulosa e incerta definição do que seja essa palavra. E isso tem causado no meio católico um certo desconforto e perplexa confusão, pois confrontam proselitismo com evangelização, sem delimitar precisamente uma coisa da outra, denotando uma oposição entre as duas coisas. Deparamos-nos, na verdade, diante de um artifício retórico e semântico, que, ao fim e ao cabo, desvirtua e redireciona a missão da Igreja, traindo o mandato do Senhor Jesus. Para tentarmos entender o que está acontecendo, faz-se mister dissecar cada palavra que são usadas como palavras-talismã ou como chave de entendimento. Primeiramente, o que significa ‘proselitismo’? Bem, de acordo com o filólogo Caldas Aulete, em seu Novíssimo Aulete – dicionário contemporâneo da língua portuguesa, Editora Lexikon, nova edição de 2018: proselitismo é “Substantivo masculino. Empenho para se conseguir prosélitos, adeptos; sectarismo (proselitismo político; proselitismo religioso); doutrinação; catequese”. A etimologia da palavra proselitismo é proselitismo (do latim eclesiástico prosélytus, que por sua vez provém do grego → προσήλυτος) é o intento, zelo, diligência, empenho de converter uma ou várias pessoas, ou determinados grupos, a uma determinada causa, ideia ou religião. Portanto, proselitismo é conseguir adeptos. Logo, é empenhar-se em conseguir adepta para uma causa, para uma determinada corrente filosófica ou mesmo religiosa. Esse é o seu sentido real e etimológico.

Em face dessa definição em base etimológica, a evangelização seria… fazer proselitismo! Inclusive, na época apostólica havia os prosélitos (Mt 23,15 e At 13,43). Ora, como o Novo Testamento fora escrito em grego, temos a etimologia desta palavra: o termo “prosélito”, como visto acima, provém do grego koiné προσήλυτος (Transl.: proselytos), presente na Septuaginta usado para estrangeiros e forasteiros em Israel”; um “peregrino na terra”, e no Novo Testamento significa: conversos ao Judaísmo de outras religiões. O equivalente hebraico é גר (Transl.: ger). Portanto, os prosélitos, que eram os gentios, ou os não judeus, que se converteram ao judaísmo e eram circuncidados. Definitivamente, neste contexto, o proselitismo é um ato ou processo de buscar adeptos para a religião. Por tanto, é também evangelizar.

Mas a conotação com que se usa hoje na Igreja, a palavra proselitismo, principalmente por pastores eclesiásticos em seus discursos e homilias parenéticas é de sentido pejorativo, invertido e completamente destorcido. Esvaziaram o significado desta palavra e a empregam de forma solerte, como que afrontando o seu real significado, e o que é pior, contradizendo e arrostando o mandato de Nosso Senhor Jesus Cristo. E retomando as palavras do Proêmio do decreto Ad Gentes, confrontamos com o discurso confuso e obscuro com que é usado à revelia de seu real significado. O que constatamos é que há uma certa aversão à evangelização dos antigos missionários, da forma com que ardor eles evangelizaram e viveram o Evangelho em terras de missão. Percebe-se uma certa ojeriza e repúdio velado, que se escancara gradativamente em certos ambientes católicos, chegando às raias da condenação a esses mesmos missionários que levaram o Santíssimo Nome de Jesus e a Sua Redenção a todos os povos que ignoravam a Boa Nova da Salvação.

O que causa espanto é o fato de prelados da Igreja exortarem os católicos, de forma inusitada, a não praticarem o proselitismo. Esse neo discurso é assaz confuso, pois desnuda uma falsa realidade que esvazia o aspecto etimológico da palavra, afronta o decreto conciliar supra-citado e contradiz o mandato divino de evangelizar. Obviamente não afirmam que evangelizar seja errado, mas o ato de fazer proselitismo. Mas não especificam ou precisam o sentido desta palavra. Dá a entender que de forma adrede provoca-se uma controvérsia entre evangelizar em fazer proselitismo, que na realidade não existe. É um artifício, sem dúvidas, que usam para evitar o ímpeto da evangelização – que deveria ser urgente, universal e objetivando o reino de Deus, pela cruz. Chega-se ao paroxismo retórico quando se busca disfarçar esse intento anti-evangélico, construindo a fortiori, uma contrafação da missão cristã de levar a Boa Nova do Reino de Deus a todas as criaturas (pessoas humanas, obviamente)e batizá-las em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ao cercear esta divina missão da Igreja, nega-se às pessoas ainda não evangelizadas, sob o suspeito pretexto de não fazer proselitismo, a aptidão espiritual da visão de Deus face a face, a aquisição da vida sobrenatural e a possibilidade da salvação eterna. Sem tergiversar, o que se constata é uma perversa lógica que vai contra os desígnios de Deus, como que tentando neutralizar a evangelização e a salvação de toda a humanidade, como assim desejou e determinou Nosso Senhor Jesus Cristo.

Finalmente, o que nos entristece é ver que os nossos pastores de forma persistente e deixando de lado a sutileza, inculcam nos fiéis que não se deve mais buscar levar o Evangelho da Boa Nova às pessoas que não foram ainda devidamente evangelizadas, desestimulando o entusiasmo de anunciar Jesus Cristo, sob o pretexto de não ferir os sentimentos alheios, ou que não se pode tentar dissuadir quem se encontra na escuridão do erro, deixando de ser sal na terra e luz do mundo e iluminar aqueles que buscam Deus em lugar errado… A relativização da Fé, o falso respeito humano, a mentirosa nivelação da Fé católica com outras crenças, desbota o brilho da glória de Deus e trai o mandato divino de levar a salvação a todas as pessoas. Nosso Senhor Jesus Cristo pregava o Evangelho do reino (Mt 4,23), aos pobres (Mt 11,5 e Lc 7,22), afirmando que devemos perder a vida pelo Evangelho (Mc 8,35), deixar nossa casa por ele (Mc 10,29), pregando a toda criatura (Mc 16,15). São Paulo apóstolo disse que não se envergonhava de anunciar o Evangelho (Rm 1,16), que foi enviado a pregar o Evangelho (1Cor 1,17), que devemos defender o Evangelho (Fl 1,7), admoestou contra os que vivem contra o Evangelho (2Tes 1,8). Até mesmo São Pedro disse que o Evangelho foi pregado também aos mortos (1Pe 4,6). E terminando este artigo, cito o Catecismo da Igreja Católica, em seus primeiros parágrafos, corroborando todo fundamento que usamos nestas linhas, destruindo a infeliz e errática alusão ao proselitismo como contrário e adverso à evangelização:

I. A vida do homem – conhecer e amar a Deus

1. Deus, infinitamente perfeito e bem-aventurado em Si mesmo, num desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para o tornar participante da sua vida bem-aventurada. Por isso, sempre e em toda a parte, Ele está próximo do homem. Chama-o e ajuda-o a procurá-Lo, a conhecê-Lo e a amá-Lo com todas as suas forças. Convoca todos os homens, dispersos pelo pecado, para a unidade da sua família que é a Igreja. Para tal, enviou o seu Filho como Redentor e Salvador na plenitude dos tempos. N’Ele e por Ele, chama os homens a tornarem-se, no Espírito Santo, seus filhos adotivos e, portanto, herdeiros da sua vida bem-aventurada.

2. Para que este convite se fizesse ouvir por toda a Terra, Cristo enviou os Apóstolos que escolhera, dando-lhes o mandato de anunciar o Evangelho: «Ide, pois, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprirem tudo quanto vos prescrevi. E eis que Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo» (Mt 28, 19-20). Fortalecidos por esta missão, os Apóstolos «partiram a pregar por toda a parte e o Senhor cooperava com eles confirmando a Palavra com os sinais que a acom­panhavam» (Mc 16, 20).

3. Aqueles que, com a ajuda de Deus, aceitaram o convite de Cristo e livremente Lhe responderam, foram por sua vez impelidos, pelo amor do mesmo Cristo, a anunciar por toda a parte a Boa-Nova. Este tesouro, recebido dos Apóstolos, foi fielmente guardado pelos seus sucessores. Todos os fiéis de Cristo são chamados a transmiti-lo de geração em geração, anunciando a fé, vivendo-a em partilha fraterna e celebrando-a na liturgia e na oração.

Que Nosso Senhor Jesus Cristo ilumine os nossos pastores e lhes infunda a coragem de evangelizar, até as últimas conseqüências, mesmo com derramamento de sangue, pois os tempos hodiernos exigem o martírio, o testemunho que se demonstra no alto da cruz, ao lado do senhor crucificado, sem temor ou falso respeito humano, pois a vida do católico só terá sentido se evangelizar, uma vez que teremos que prestar contas a Deus desta missão (1Cor 9,16): ‘ai de mim se não evangelizar!’. Amém.

[1] 1. Const. dogm. de Ecclesia, Lumen Gentium, 48: AAS 57 (1965), p. 53.
[2] 2. Cfr. Mc. 16,15.
[3] 3. S. Agostinho, Enarr. in Ps. 44, 23: PL 36, 508; CChr. 38, 150.
[4] 4. Cfr. Mt. 5, 13-14.
[5] 5. Cfr. Eccli. 36,19.

Artigo escrito pela Rev. Padre Carlos Maria de Aguiar

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