Discussão
“A paz está mais distante”: Cardeal italiano Pizzaballa faz diagnóstico duro e alerta para avanço dos radicais no Oriente Médio

Em meio a um dos momentos mais tensos do Oriente Médio, a voz do cardeal Pierbattista Pizzaballa surge menos como diplomacia e mais como diagnóstico. Em entrevista ao Corriere della Sera durante a Milano Civil Week, o patriarca latino de Jerusalém descreve um cenário em que a paz deixou de ser um horizonte concreto para se tornar uma ideia cada vez mais distante. “A solução de dois povos e dois Estados é cada vez mais difícil”, afirma, sem rodeios. Não se trata apenas de impasse político. O problema, segundo ele, é mais profundo: “Hoje prevalece o desejo de separação, não de convivência”. A frase sintetiza uma mudança silenciosa e perigosa. Onde antes havia, ao menos em tese, a possibilidade de coexistência, agora cresce uma rejeição mútua alimentada por medo, trauma e desconfiança. “A confiança desapareceu completamente”, diz Pizzaballa. E sem confiança, alerta, não há negociação que sobreviva. O risco, nesse vazio, é claro: o avanço das posições extremas. “Não se pode deixar a palavra a quem quer destruir tudo”, afirma. Em tom direto, ele aponta que o silêncio dos moderados abre espaço para que vozes radicais dominem o debate e, consequentemente, o futuro. Em meio ao cenário sombrio, ele insiste na necessidade de uma resistência quase moral: “É preciso continuar a falar de esperança”. Para o cardeal, esperança não é ingenuidade, mas escolha consciente diante do colapso. Ao olhar para fora da região, ele também envia um recado claro à comunidade internacional: não basta assistir. “Não basta observar, é preciso agir”, afirma, ainda que reconheça a complexidade do conflito: “Não existem respostas fáceis”. O resultado é uma entrevista na qual Pizzaballa não oferece soluções mágicas nem discursos conciliadores. “A convivência é difícil, mas não impossível.” Sua mensagem se sustenta entre o realismo e a recusa em desistir.



