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Heresia e cisma: Papa Francisco e as palavras inquietas

Paramentos Litúrgicos
A imagem do cisma na Igreja emergiu repentinamente nas palavras do Papa Francisco por ocasião do encontro com jornalistas na viagem de ida e volta à África (Moçambique, Madagascar, Ilhas Maurício). Tudo nasceu a partir de um livro que o autor, Nicolas Senèze, correspondente do Vaticano do La Croix, Como os EUA querem mudar o Papa ofereceu como presente ao Papa na viagem de ida.

O comentário é de Gabriele Passerini, publicado por Settimana News, 11-09-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

 
O papa comentou: “Para mim, é uma honra que os estadunidenses me ataquem“, aludindo a algumas franjas da direita católica norte-americana que o livro evoca: dos Cavaleiros de Colombo a Steve Bannon, da rede de televisão da EWTN a Timothy Busch, do grupo de empresários Legatus ao centro “Ethics and Public Policy” de George Weigel. No retorno, a uma pergunta específica de Jason Drew Horowitz (The New York Times), expressou em termos mais suaves a sua posição sobre um possível perigo de cisão.
 
Migrações dos significados

Embora seja um episódio limitado dentro de uma viagem que teve bem outros focos e objetivos (nas Ilhas Maurício, Moçambique e Madagascar), é útil ressaltar as tendências que sinaliza:

 
* do silêncio à palavra. Até o momento, o Papa falou das críticas dirigidas a ele como episódios que não tiram seu sono, a serem discernidos com atenção, que devem ser entendidos em suas intenções. É a primeira vez que ele responde diretamente a uma das vertentes críticas mais organizadas e cautelosas;
 
* da heresia ao cisma. A acusação de heresia contra o Papa é de várias formas reevocada nas cartas críticas que ilustres eclesiásticos e “professores” vários dirigiram a ele. Com maior precisão, o Papa Francisco fala de um perigo não sobre a doutrina, mas sobre a disciplina na Igreja, precisamente o cisma;
 
* dos eclesiásticos aos laicos. O descontentamento com seu ministério e magistério (da migração à denúncia do sistema econômico, das indicações pastorais sobre a família à defesa dos pobres) era principalmente liderado por eclesiásticos: de Burke a Brandmüller, de Viganò a Ejik. Agora, surgem alguns laicos estadunidenses, fortemente expostos no apoio a Trump;
 
* das aquisições aos processos. Se o efeito esperado pela oposição tradicionalista norte-americana era de romper o consenso eclesial ao papa, o perigo real poderia ser de impor uma desaceleração nas reformas em vista dos próximos eventos, como o Sínodo sobre a Amazônia. O Papa está lucidamente ciente disso;
 
* de Viganò ao novo conclave. As variadas acusações de Mons. Carlo Maria Viganò faziam pensar a uma pretensão de provocar as demissões do Papa. Hoje, a intenção parece mais a de condicionar o novo conclave que elegerá o sucessor, quando isso acontecer.
 
Crítica, dissenso e cisma

Aqui estão as palavras da resposta do papa ao medo de um cisma (do Sismografo-blog): “Antes de tudo, as críticas sempre ajudam, sempre. Quando alguém recebe uma crítica, imediatamente deve fazer uma autocrítica e dizer: isso é verdade ou não? Até que ponto? E eu sempre tiro vantagem das críticas. Às vezes eles te deixam com raiva … Mas as vantagens existem. Na viagem de ida para Maputo, um de vocês me deu esse livro em francês sobre como os americanos querem mudar o papa. Eu tinha conhecimento sobre esse livro, mas não o tinha lido. As críticas não são apenas dos norte-americanos, estão por toda parte, mesmo na cúria. Pelo menos aqueles que as dizem têm a vantagem da honestidade de dizê-las.

 
Não gosto quando as críticas ficam por baixo dos panos: te fazem um sorriso mostrando os dentes e depois dão uma punhalada pelas costas. Isso não é leal, não é humano. A crítica é um elemento de construção e, se a tua crítica não for justa, fique preparado para receber a resposta, dialogar e chegar ao ponto justo. Essa é a dinâmica da crítica verdadeira. Em vez disso, a crítica das pílulas de arsênico, de que falamos a respeito nesse artigo que dei ao padre Rueda, é parecido como jogar a pedra e esconder a mão … Isso não serve, não ajuda. Ajude aos pequenos grupinhos fechados, que não querem ouvir a resposta às críticas. Em vez disso, uma crítica leal – eu penso isso, isso e isso – está aberta à resposta, isso constrói, ajuda.
 
Diante do caso do papa: não gosto disso do papa, eu o crítico, falo, escrevo um artigo e peço que ele responda, isso é leal. Fazer uma crítica sem querer ouvir a resposta e sem fazer o diálogo não é gostar da Igreja, é perseguir uma ideia fixa, mudar o papa ou fazer um cisma. Isso é claro: sempre uma crítica leal é bem recebida, pelo menos por mim.
 
Segundo, o problema do cisma: na Igreja aconteceram muitos cismas. Após o Vaticano I, por exemplo, a última votação, aquela da infalibilidade, um bom grupo saiu e fundou os vétero-católicos para serem justamente “honestos” com a tradição da Igreja. Depois eles encontraram um desenvolvimento diferente e agora fazem as ordenações das mulheres. Mas naquele momento eles eram rígidos, iam atrás de uma ortodoxia e pensavam que o concílio tivesse cometido um erro. Outro grupo saiu em silêncio, mas não quiseram votar … O Vaticano II teve entre as consequências essas coisas.
 
Talvez o afastamento pós-conciliar mais conhecido seja o de Lefebvre. Sempre há a opção cismática na Igreja, sempre. Mas é uma das opções que o Senhor deixa para a liberdade humana. Não tenho medo dos cismas, rezo para que não ocorram, porque está em jogo a saúde espiritual de tantas pessoas. Que exista diálogo, que haja a correção se houver algum erro, mas o caminho do cisma não é cristão. Vamos pensar no início da Igreja, como começou com tantos cismas, um após o outro: arianos, gnósticos, monofisitas …
 
Povo de Deus e Intellectus Fidei:
Eu gostaria de contar uma anedota: foi o povo de Deus que salvou dos cismas. Os cismáticos sempre têm uma coisa em comum: eles se separam do povo, da fé do povo de Deus. E quando no Concílio de Éfeso houve uma discussão sobre a divina maternidade de Maria, o povo – isso é histórico – ficava na entrada da catedral quando os bispos entravam para fazer o concílio. Estavam lá armados com paus. Eles os mostravam aos bispos e gritavam “Mãe de Deus! Mãe de Deus!”, como se dissessem: se vocês não fizerem isso, esperem por … O povo de Deus sempre conserta e ajuda. Um cisma é sempre um afastamento elitista causado por uma ideologia separada da doutrina.
 
É uma ideologia, talvez justa, mas que entre na doutrina e a separa… Por isso, rezo para que não ocorram cismas, mas não tenho medo. Isso é um resultado do Vaticano II, não deste ou daquele outro Papa. Por exemplo, as coisas sociais que eu falo são as mesmas que João Paulo II disse, as mesmas! Eu o copio. Mas dizem: o papa é comunista … As ideologias entram na doutrina e quando a doutrina desliza para as ideologias, ali existe a possibilidade de um cisma. Existe a ideologia da primazia de uma moral asséptica sobre a moral do povo de Deus. Os pastores devem conduzir o rebanho entre a graça e o pecado, porque essa é a moral evangélica.
 
Em vez disso, uma moral de uma ideologia tão pelagiana leva a rigidez, e hoje temos tantas escolas de rigidez dentro da Igreja, que não são cismas, mas formas cristãs pseudo-sismáticas, que terminarão mal. Quando vocês veem cristãos, bispos, sacerdotes rígidos, por trás existem problemas, não existe a santidade do Evangelho. Por isso, devemos ser suaves com as pessoas que são tentadas por esses ataques, elas estão passando por um problema, devemos acompanhá-las com mansidão”.

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